RETRAIR PARA PROGREDIR

08/08/2018 Publicado por: Caccuri

Num mundo em que estamos cada vez mais prezando por qualidade de vida, e isso não necessariamente se traduz em ganhar mais para aproveitar melhores e mais badaladas viagens ou momentos de lazer, é cada vez mais comum ver profissionais de anos de mercado, com carreiras extremamente promissoras, abrindo mão de cargos importantes e salários altos para fazer algo que realmente lhes faz feliz. Isso vem de um movimento cada vez mais intenso e presente nas sessões de coaching: o autoconhecimento.

Saber quem somos, o que nos motiva, o que nos traz aquela sensação de dever cumprido é fundamental para buscar a tão sonhada paz interior. E, para isso, somente após olhar para si, reconhecendo suas fraquezas e erros, assim como sabendo valorizar, sem supervalorizar, os próprios acertos e conquistas, é que é possível livrar-se das armadilhas do ego para ir em busca do que realmente lhe faz bem, sem se importar com o status que essa nova posição ocupa. Sim, pois após entender que dinheiro e nomenclaturas nem sempre são tudo em uma carreira, é muito comum ver profissionais de altíssimo gabarito, dizendo “não” para propostas consideráveis.

Nessas minhas andanças pelo mundo corporativo, tenho visto com certa frequência esse movimento. E, categoricamente, afirmo: fazer uma revisão da carreira, reconhecer limitações, considerar um downgrade, focar naquilo que traz prazer, são apenas alguns dos primeiros passos que o profissional estagnado precisa dar para observar mudanças na satisfação de trabalhar diariamente. Sim, porque cumprir tabela de horário e de função não necessariamente faz com que haja progressão na carreira.

E é preciso ter coragem para passar por uma reformulação dessas. Há riscos a assumir, como por exemplo a exposição diante de um mercado que costuma ser cruel nos julgamentos. A possível perda de status mexe não só com quem “baixou o nível profissional”, mexe também com quem está à volta. São poucos que reconhecem a coragem que há por trás desse ato.

Outro risco, esse sim muito relevante, é a possível diminuição de renda, mesmo que temporária, ou muitas vezes definitiva. Dar um passo para trás exige, na maioria dos casos, o enfrentamento de diminuição no padrão de vida, uma vez que se reduz o salário e, principalmente, alguns benefícios. Já vi casos, por exemplo, de famílias inteiras ficarem descobertas do plano de saúde em função do desligamento. Ou seja, há que se pensar muito nas consequências que, nem sempre são só financeiras, no momento de recuar.

Por outro lado, posso também afirmar que, na maioria dos casos, o resultado é satisfatório. Comodismo não leva adiante e esse é o principal impulsionador da reformulação da carreira. Poderia relatar aqui inúmeros casos positivos de pessoas que abriram mão da experiência tradicional corporativa para ir em busca de algo que lhes fizesse feliz e, com isso, diminuíram o patamar social, porém se encontraram satisfeitos com a nova vida, uma vez que se viram menos estressados, cobrados, assediados pela rotina massacrante e judiada das corporações. E, não só isso, encontraram contentamento em ter mais tempo para a família e para coisas muito simples, onde descobriram ser melhor do que todo aquele status de outrora.

Dar um passo para trás pode, muitas vezes, ser o remédio para um profissional “doente”. Pode ser a reconstrução de alguém que, se já não tinha perdido, estava prestes a perder o prestígio. Recuar fortalece. Dá calos nas mãos, experiência. E, acredite, nunca é tarde demais para repensar. Pelo contrário, em qualquer momento da vida é possível repensar e reconstruir uma carreira infeliz.

O mundo corporativo

Não muito distante, existe ainda a realidade de muitas empresas que, ao passar pela crise, precisaram retrair. Muito se falou em cortes e demissões, muito ouvimos falar no constante aumento da taxa de desemprego. Foi inevitável. Grandes e pequenas empresas precisaram rever seus quadros funcionais, investimentos e custos, para ajustar as contas à nova realidade de mercado. Foi, e ainda é, necessário colocar o pé no freio para não sofrer de forma mais dramática com a crise. Empresas precisaram fechar, senão todas as portas, unidades de atendimento para concentrar seus esforços com equipes menores.

Se isso foi bom ou ruim? Depende muito do ponto de vista.

Obviamente que não foi confortável assistir o movimento que o mercado fez. Quantos amigos e/ou bons profissionais perderam seus empregos em função da retração das empresas onde trabalhavam? Por outro lado, testemunhamos algo muito interessante e eu diria até que necessário para o mercado de trabalho brasileiro: as empresas começaram a produzir o mesmo, ou até mais, com o quadro de funcionário bastante reduzido. A que se deve isso? Produtividade!

E sim, nós (brasileiros) precisávamos de um chacoalhão desses para aprendermos a utilizar melhor não só o nosso tempo, mas a nossa mão de obra!

E é justamente por conta disso que ouvimos muito dizer que a crise está em seu fim, porém não ouvimos, na mesma proporção, dizer que o desemprego está abaixando. As empresas se reinventaram, mudaram seus processos, otimizaram seus funcionários. E eles, por sua vez, entenderam a necessidade de se doar ainda mais para manter seus empregos. O resultado disso foi um melhor e mais inteligente uso das atribuições de cada um, já que a competência mais exigida de todos nesse momento foi a de multitarefa.

Não tenho dúvidas que sairemos dessa crise pela qual fomos acometidos com um novo olhar, mais experientes e mais assertivos. Dar um passo atrás não significa necessariamente encolher, significa entender que adaptação faz parte do processo, e foi isso que fizemos: nos adaptamos à nova realidade.